Estou em crise de identidade. Existem pessoas que têm dupla personalidade, existem pessoas que têm personalidade mas são bipolares, mas eu acho que nem é esse meu caso. Pensei bastante no assunto e cheguei à conclusão de que tenho quádrupla personalidade. O que eu chamo de “eu” é, na verdade, quatro pessoas. Pior que isso, essas quatro pessoas nunca se encontram, ou nunca estão de acordo, e quando eu me refiro a mim (ou alguém se refere), fica difícil reconhecer de qual das quatro pessoas se está falando.Em um momento de reflexão na semana passada, consegui identificá-las, porém ainda não conversar com elas. Por enquanto, só tenho a certeza de que são quatro. Apresento-lhes:
1. Um ser humano. Uma pessoa com todas suas aspirações, medos e ambições. Um jovem em busca do futuro, de uma carreira profissional, sucesso, status talvez. Alguém que quer mais da vida, conhecer o mundo, estudar bastante, saber um pouco sobre tudo, inventar coisas novas, ficar famoso por algo que fez. Trabalhar em algo que goste, ser bem-sucedido, relacionar-se bem com seus colegas e amigos, ser conselheiro e, quem sabe, um líder. Ter momentos de lazer com amigos, ensinar alguém a dançar, aprender a subir em árvores, ler um bom livro.
2. Sou mulher. Tenho fragilidades e aspirações próprias do sexo feminino, um coração de manteiga, uma carruagem que se transforma em abóbora. Sonho com a alma gêmea, o príncipe encantado, a cara-metade ou sei lá como se chame as tiras do meu chinelo. Sonho com alguém que me complete e me dê carinho, e em quem eu possa confiar, tanto quanto em mim mesma: uma extensão de mim. Quero receber flores, quero escrever cartas, quero jantar à luz de velas. Quero dividir um chiclete, passear à pé de mãos dadas, deitar na varanda admirando as estrelas, compartilhar a mesma música e os mesmos fones. Quero um amor para chamar de meu. Que me faça feliz com um sorriso. Que me faça contar as horas para revê-lo.
3. Sou filha. Não sou independente financeiramente, não tenho casa própria. Amo meus pais e moro com eles por opção. Adoro a comida da minha mãe, agüento o jeito (às vezes) ranzinza do meu pai. Eles me querem sempre por perto, nem sempre posso sair, e quando saio tenho hora para voltar. As cadeiras são demarcadas, a televisão é de quem chegar primeiro, assim como o banheiro. Há delegação de tarefas, e uma rotina diuturnamente previsível. Não é aceitável que eu tenha amigos que meus pais não conheçam, e muito menos que me visitem em horários impróprios (a definição desses horários muda consideravelmente conforme o humor e a previsão do tempo do dia). Também são comuns as discussões onde nunca se encontra o culpado, como torneira pingando, luz acesa, aparelhos elétricos ligados, copo sujo em cima da mesa, onde está o controle da televisão, alguém pegou meu isqueiro, quem terminou o papel higiênico e não repôs, quem deixou a embalagem do sabonete em cima da pia, quem tomou todo o refrigerante, quem mexeu no meu queijo, etc. Tais discussões por vezes afetam o humor dos moradores durante o dia inteiro. Além disso, algumas manias estranhas não respeitadas também podem mexer bastante com a escala Richter: Não faça barulho com a cadeira, não faça barulho quando caminhar de salto, não faça barulho quando der risada, não faça barulho enquanto alguém está assistindo televisão ou ouvindo rádio ou dormindo ou com dor de cabeça ou de mau humor ou com sono ou com fome ou comendo ou com náuseas. Nunca fale alto, não grite em hipótese alguma, cante somente se for afinado. Todos os meus amigos têm cara de gay, marginais, drogados, alcoólatras, prostitutas, transtornados mentalmente, repetentes, vagabundos, promíscuos, mal-falados, pobretões, não tomam banho ou não escovam os dentes ou escondem algo de seus pais ou da polícia, e, se eu andar com eles, todos vão pensar que eu sou tudo isso também. A mesma regra vale para todas as pessoas do sexo masculino por quem eu possa vir a me interessar.
4. Sou mãe. Diante de todo o exposto anteriormente, certamente por essa você não esperava. Tenho uma filha de oito anos que é a razão da minha vida, companheira de todas as horas, anjo que me curou da depressão com seu sorriso, e me roubou a rebeldia da adolescência antecipadamente. Eu ainda batalhava por um futuro para mim, quando surgiu a Flavi e, de repente, eu tinha que dar um futuro para ela. Tive uma história tão linda quanto triste com o pai dela, que contabiliza mais de dez anos entre namoro, brigas, união instável, amizade, rolo, namoro de novo, brigas de novo, ainda mato você, amizade de novo, rolo de novo. Já faz um mês que terminamos o namoro e estamos na fase de amizade de novo. A Flavi parece não se importar com isso, para ela o papai é namorado da mamãe e visita de vez em quando, mas quem dá dinheiro para comprar salgadinho é o vovô. A mamãe manda em mim, mas a vovó manda nela, então ela manda mais. Talvez um dia eu vá morar numa casinha só minha e da mamãe e do papai, e então poderei ter um cachorro. Mas antes disso a mamãe tem que terminar a faculdade, ela está estudando para ser jornalista, tem que pegar ônibus todo dia e quando ela volta para casa eu já estou dormindo. Outro dia papai me disse que acha que a mamãe não gosta mais dele, e eu falei que isso é mentira, porque a gente ama a nossa família. Mas o papai é muito ciumento. A mamãe, que eu saiba, só tem ciúmes de uma tal de Jaque, que deve ser muito feia e gorda e chata, eu não conheço ela mas eu odeio ela porque ela quer roubar o meu papai de nós.

Pausa para respirar. As outras três pessoas ficaram muito surpresas com essa última. Talvez agora elas aceitem se reunir e fazer as pazes. Nenhuma é mais importante que a outra. É como diz a Flavi: “somos uma família”. Há uma família dentro de mim. E eu nem sabia.